Alexandre da Maia e suas doideiras... notas de um cardisplicente


Uma pimentinha do reino, por favor...

Querido Adrualdo, Permita-me discordar. O conceito clássico de "indivíduo" pressupõe tudo aquilo que não somos: uma unidade indivisível e pretensamente racional do ser humano. Tudo isso é uma ficção barata de um modelo enlatado de ser humano, que não considera nem ao menos a circunstância de um fracionamento interno que nos marca como animais que somos. Acho que o discurso da racionalidade pode por vezes esquecer (e isso não acontece por acaso) que, no fundo, somos animais. Não quero entrar no mérito de isso ser bom ou ruim. Afinal, os julgamentos morais são uma válvula de abertura à contingência da própria compreensão do que é "ser moral". Assim, o "valor moral", no caso do seu texto, é aquele que você acha que é um valor moral. E, claro, há outros seres humanos com expectativas morais bem diferentes das suas. E a democracia não é o espaço da identidade, mas sim da diversidade. E a ênfase na diferença não gera mais violência dessa forma escatológica colocada por você. Pelo contrário: talvez a falta de enquadramento nos padrões identitários (quer pelo racismo, pela pobreza, pela xenofobia etc.) gere mais e mais violência. O discurso nazista é um discurso da identidade, e não da diferença. Ou seja, só quem é "igual" merece consideração e apreço, e isso vem gerando mais e mais exclusão, miséria, fome, intolerância etc.

Tematizar a "unidade da diferença" (e isso envolve, claro, paradoxos) pode ser um caminho de teorização. E não tô preocupado com uma "teoria do direito", pq isso pra mim é um corolário dos problemas relacionados à dinâmica da sociedade e das diferenças nas formas de agir, de querer, de vivenciar, de amar, de sofrer etc.

E como diria Marcelo Neves, a marca da democracia não é o consenso, mas sim o dissenso, e o direito funciona muito mais como um mecanismo de neutralização de dissensos do que de materialização de "consensos". A decisão jurídica, por exemplo, é muito mais uma forma de neutralizar dissensos, tentando colocar um ponto final no debate por meio do esgotamento dos procedimentos previstos para a discussão. Isso não significa dizer que o resultado da decisão é fruto de um consenso, seja ele "racional" ou não.

E não há "um pano de fundo", e sim panos que se mesclam e se separam de forma contingente, vide o que acontece no âmbito do amor, da política, do direito, da economia etc. Não se fala da sociedade fora da sociedade, e nisso eu acho que Luhmann tem razão: ao falarmos de sociedade, isso já é sociedade, e não um objeto alheio, distante, "de fora", que nós descrevemos como se fosse um pedaço de bolo. Falar de sociedade já é sociedade. Ou seja, autodescrição. Assim, o modelo clássico sujeito-objeto perde sentido porque é uma autodescrição, e não uma descrição que se faz "de fora".

Sigamos no debate, meu querido amigo.

Abração, da Maia



Escrito por da Maia às 03h58
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